terça-feira, 20 de janeiro de 2015

El encuentro


Y un día se han encontrado, el sol y la luna
Él en su puesto, orgulloso y radiante, ojeaba el ambiente
Ella en movimiento, tímida y misteriosa, se acercó, en el poniente
Se miraron como dos bichos extraños, de especies diferentes.

Y así empezaron un baile fascinante, aturdiendo el firmamento
Cambiaron vistazos y fulgores, matizes y luces,
En lo que se podría llamar un fenómeno de desaceleración del tiempo
De tal modo que hasta los planetas cesaron su movimiento
Y las estrellas y cometas han pedido permisión, por um momento,
Solo para verlos.

Y ya que el tiempo es una invención humana (lo sabemos)
Este baile puede haber durado un día o una noche o una eternidad
Hasta que de golpe, el efímero instante ya no era más
Y, lánguidos, los cuerpos de la Vía Láctea volvieron a la normalidad.

La volátil y oscura luna ha tomado, en la niebla, su camino
Y el poderoso sol, en su soledad, se puso a buscarla
Y aunque un mundo de distancia, con todos sus océanos, los separaba
Uno sabe cuándo no puede escapar a su destino...

Y así, sol y luna, en cada eclipse se encontraban
Por lo que podría ser un día, una noche o una eternidad 
Para cumplir el amor que a sus cuerpos celestes ataba
Y bailar su mágico tango de luz, sombras y complicidad.

Poesía: Glória  Paiva.

quarta-feira, 25 de junho de 2014

Apraz-me

 
 
Os caminhos do meu corpo
Que percorres tão íntimo
São como os versos do teu poeta
Que de preferidos, sabes de cor.
 
Da nuca à medula
De frios mornos
Molham-me os cabelos
De grito e rouco
O que te escapa, murmuras
Somente em meus ouvidos.
 
E me olhas como um bicho
De fomes que só eu sei,
E me mordes a ponta dos suspiros
Que havia de muito não dei.
 
E de olhos fechados
Te percorro
Os caminhos escondidos,
Por onde há muito andei.
 
Enlaço-te de coxas
E tu atas-me o quadril
E me beijas os anseios
Ao que meus dedos tocam os teus.
 
E vamos além
Onde deus não permite
Mas Veritas se faz
E o suspiro que nos escapa,
Dionísio
Qual morfina em nossos corpos se apraz.
 
Repouso-me em teu peito
 
Teu corpo se faz pele e pêlo
O meu, febre e medo
E mesmo nos desencontros
que tu sabes,
Querido
O meu tempo se encontra
com o teu.
 
 

Poesia - Christianne Oliveira.
Imagem - Autor desconhecido.



sexta-feira, 16 de maio de 2014

14


Seco de
sol
amarillo abrumador
sucumbe en
expectante azul,
que celeste,
que verde.
 
Onírico de un
día flota
leve y
circula en
espiral
lúdico de
mar.



Poesia: Pablo Bas.
Imagem: Autor desconhecido.


segunda-feira, 31 de março de 2014

Coração de homem



E lá redunda aquele homem:
a repartir seu coração
entre infinitas mulheres; com
efeito, sob olhares.
Mas quem nota que o faz só
por já tê-lo,
desde um quando, em infindo
despedaço?
 
Texto: Ewerton Martins Ribeiro.
Imagem: Marion Fayolle.


quarta-feira, 26 de março de 2014

Brinde


Para uma linda judia.  
dorme no seu canto, menina

atento, velo alva paisagem
rara beleza branca
mais que meu alento
sua presença é gozo supremo
puro encantamento

graça infinita
naufrágio, delírio, abismo
boca que me desperta
corpo que me incita

- o que é isso?

é amor, coisa que não se explica.
 
 
Poesia: Daniel Rubens Prado.




segunda-feira, 10 de março de 2014

Crônica de uma saudade


Chegou janeiro de 2014. O tão esperado novo ano trouxe consigo, apressadamente, a notícia de que meu grande amigo mineiro, Márcio Rubens Prado, havia falecido. Tardiamente avisada, não pude despedir-me dele. E só naquele momento percebi que nosso último encontro havia sido em fevereiro de 2007, ocasião em que concluí meu doutoramento na UFMG.

O período de doutoramento costuma ser uma etapa peculiar na vida de um profissional, na maioria das vezes docente em Instituições de Ensino Superior. Aqueles que conseguem chegar ao doutorado com afastamento total, meu caso e de outros colegas, gozam do privilégio de estarem distantes dos mundos que os circundavam em suas instituições. Rivalidades, problemas, destemperos, desânimos... Tudo pode ser deixado pra trás. Pelo menos por algum tempo.

E assim o pesquisador (jovem em sua maioria) vê-se diante de uma nova realidade, em que lhe é dada a oportunidade de mostrar a que veio, em que a reflexão é subitamente jogada em seu rosto, em que a maturidade vai sendo forjada aos poucos e que, muitas vezes, sente-se inseguro diante tantas dúvidas. Mas o que é a dúvida se não a porta para o conhecimento?

Pois bem, o pesquisador em formação enche-se de motivação e de orgulho por fazer parte de grupo tão seleto (é o que lhe dizem na semana de recepção) e passa a dedicar seu tempo às leituras, às discussões, às tentativas de encontrar respostas adequadas e, fundamentalmente, à busca insana por um bom problema de pesquisa.

E é nesse momento, paeafraseando meu mestre Carlos Alberto Gonçalves, que o pesquisador entra em sua bolha teórica e lá ele encontra amparo. Sente-se seguro e até arrisca em pensar em modelagens com diversas variáveis e distintos níveis de análise. Considera-se apto a devolver seu estudo e acredita que poderá trazer contribuições importantes a partir dele.

E a bolha teórica pode durar uma vida toda. Infelizmente. Ao contrário, em afortunadas ocasiões, o jovem pesquisador percebe que há um mundo lá fora, onde regularidades não são, de fato, "regulares". Que os padrões são meras simplificações que nos permitem lidar com um conjunto limitado de opções ao mesmo tempo. Que todo o conhecimento é fragmentado e, portanto, parcial. E que ele, o pesquisador, é apenas uma peça no gigante quebra-cabeça da realidade.

Aliviado por perceber sua pequenez, o pesquisador algumas vezes dedica-se a ampliar seus horizontes, fugindo do absolutismo cartesiano e jogando-se em caminhos pouco caminhados. E a busca por respostas vai criando asas e alçando voos mais amplos que permitem ver não somente a árvore, mas a floresta inteira.

Algumas vezes o pesquisador - no caso em tela, esta pesquisadora - tem a satisfação de encontar pessoas que lhe mostram mundos diferentes, olhares distintos, perspectivas até então ignoradas. E então, tal como está na Bíblia, faz-se a luz e tudo passa a ter outro sentido. Ou sentidos.

E aí é que minha história se cruza com a do saudoso e insubstituível Márcio Rubens Prado. Mineiro nascido na pequena Guanhães. Modestamente, chamava a cidade natal de centro do sistema solar. Figura ímpar, dotado de um senso de humor refinado e de cultura admirável, Márcio colecionava admiradores por onde passava, e seu carisma fazia com que muitos sentassem a sua volta para, apenas, ouvi-lo contar repetidas vezes sua coleção de causos. Personagens memoráveis entravam em nossas vidas e muitos bordões surgiam em cada história recriada por ele.
 
Embora tivéssemos quase quarenta anos separando nossas idades, tivemos uma identificação instantânea. No dia em que eu o conheci, já sabia que tinha encontrado um grande amigo. Um irmão de outras vidas, para quem acredita que elas existem. Graças à sua paixão pelo Grêmio, a empatia foi ainda mais rápida e nossas primeiras charlas tratavam do mundo futebolístico, à época um dos meus interesses. Além da tese que nascia, obviamente.
 
Falávamos todos os finais de semana e Márcio, diante de minha juventude, assumiu o papel de tutor, mostrando-me parte de seu universo literário. Conseguiu despertar o gosto pela leitura de ficção - há tempos por mim deixada de lado. A leitura acadêmica mostrava-se necessária e, algumas vezes, interessante. Mas havia um outro mundo lá fora, esperando para ser desvendado.
 
Jornalista, publicitário, escritor, revisor, boêmio, de esquerda. Tudo isso era Márcio Prado. E muito mais. Figura que não poderia ser resumida em poucas palavras, com uma vida plena de boas histórias. E um amigo de coração gigante.
 
Fizemos uma promessa de que jogaríamos sempre na mega sena e que, o que ganhasse primeiro, daria uma boa quantia ao outro. Qual o quê... Deixou-me sem meus milhões e com reduzidas chances de enriquecer.
 
Porque ser pesquisador não é, obviamente, caminho para enriquecimento. Pelo menos se estivermos pensando nas ciências sociais. Aplicadas ou não, não são consideradas de primeira grandeza e, reduzidas a sua pequenez, obtêm baixo reconhecimento de todas as naturezas, incluindo o monetário.
 
Mas não é sobre dinheiro que quero falar. Quero dizer da minha gigantesca saudade de meu amigo mineiro. Nos vimos a última vez em março de 2007. Sabedor que meu retorno ao País das Gerais - como dizia - não seria rápido ou mesmo provável, preferiu não despedir-se na forma tradicional e deu-nos um belo "carão" em minha festa de despedida.
 
Em sua defesa, disse-me que não gostava de despedidas. Que preferia pensar que seria um até breve.
 
De fato foi, porque mantivemos a amizade e o afeto que tínhamos e passamos a trocar cartas semanais. Algumas memoráveis. Especialmente quando ele, generoso, tratava de atualizar-me sobre as andanças de nossos amigos. Fulano está de namorada nova. Beltrano continua contando as mesmas piadas sem graça. Algumas vezes dizia-me de amigos que estavam adoentados e mostrava-se preocupado.
 
Márcio incentivava-me a escrever. Generoso, via em minhas cartas algo promissor e dizia que eu deveria dedicar-me à escrita. "Você é do ramo, garota", dizia ele. Talvez quisesse apenas motivar-me para que não perdêssemos o hábito de nos corresponder. Mas é fato que voltei a gostar de escrever livremente. Sem a preocupação com citações, autores, obras e referências.
 
Em 26 de maio de 2013, Márcio completou 80 anos. Com direito à festa surpresa e homenagens. Não consegui estar lá. Não nos vimos. Novamente, não nos despedimos. Minha ausência doeu fundo quando soube da sua prematura morte. Pessoas geniais deveriam viver por centenas de anos, espalhendo sabedoria e, no caso do meu amigo, alegria.
 
E então volto ao ponto inicial. O doutoramento foi um período intenso em minha vida. Academicamente, deparei-me com minhas fragilidades e angústias. Pessoalmente, enfrentei a separação de minha famílias e de meu marido. Fiquei sozinha diante de muitos medos.
 
Mas tudo valeu a pena. Não mudei o mundo, não fiquei famosa, não virei referência em minha área de estudos. Fui atrás das regularidades e dos padrões, trilhei o caminho menos arriscado. Nem sempre este é o mais promissor. Ao final de quatro anos, tornei-me doutora e demorei algum tempo a acostumar-me com o título. Na caminhada, ganhei amigos, dividi momentos de profunda emoção com pessoas especiais. Muitas delas deixaram marcas e saudades em minha vida.
 
E o Márcio foi uma delas. Olhando sua foto em nossa mesa de centro, minha filha Cecília pergunta: "Tu sente saudade do tio Márcio, mãe?". "Sinto muita saudade", é a minha resposta. "Ele virou uma estrelinha brilhante, mamãe. É legal". Ah, a inspiradora lógica infantil...

Tem razão, minha filha. Deve ser bem legal virar uma estrelinha brilhante.
 
 
Crônica: Flávia Luciane Scherer.

quinta-feira, 6 de março de 2014

O pé de manacá

 
No cocoruto do morro detrás da casa dos meus sonhos tem um pé de manacá.
Não fui eu quem plantou.
Na chuva, o roxo brota. No frio, as folhas encolhem.
Vez em quando, amanhece podado, triste. Depois rebrota de zunidos.
Quando essa vida passar, espero ser manacá.
Que nem já sou.
 

 
Texto: Augusto Franco.
Imagem: Raíssa Pena.


quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Pra ver se consigo


Um dia, no longe, o passarinho voou
para os verdes do nunca mais,
e não houve
arapucas infantes,
nem visgos colantes
ou armadilhas bastantes
que o trouxessem de novo
para a gaiola dourada
onde guardamos os sonhos,
os felizes, os tristes, os alegres risonhos.
 
Mas...
 
... ganhei um alçapão de ouro,
de cana do reino, entalhado.
Vou pegar meu chamarisco
ir bem longe da cidade
só eu e minha gaiola
pra ver se consigo pegar
o passarinho muito arisco
chamado Felicidade.
 

 
Poesia: Egly Fortes de Souza, Márcio Rubens Prado e Célio Balona.
Imagem: Brito del Mar.
 


quinta-feira, 5 de setembro de 2013

A loucura é uma tempestade entre a alma e a realidade

 

Às vezes me vem um sonho, desses que a gente dedilha na tampa das mesas
Pudera eu ser feita de pedra de canto de passeio, alheia ao resto da história
As manhãs, que como, são especialmente torradas
Esses destemperos me atraem
Põe noção na desordem da minha alma

Estou para o abismo na estrada
Meus olhos são de poentes desarranjados
Não acredito em poesias que duram um estudo
Vivo dependurada na incredulidade
Balançando pernas como criança
Atitudes embaraçam-me o pensar

A chuva que vem de mim não molha
Uso olhos de guardar pessoas
Encarceradas em mim feito oração
O que ilumina a alma são suas chegadas

Amo os ventos em meu sentido
Deito pó em qualquer estrada
As crianças têm consistência da uva
Suspiram-me
Campos de morangos têm gosto de para sempre

Vivo entre dois mundos
Mas prefiro estar onde possa flutuar

Aqueço minhas mãos em olhares de gatos e pessoas com sofrimento
Porque são amaldiçoadas desde muito
Pequenos tristes despedaçam minhas canções

Coleciono pastilhas azuis da torre da igreja
Que caem derribadas de chuvas e vendavais
Carregam orações de sonhar, desejar, saudar e doer
Por isso têm permanência em meus vasos, oratórios e caixinhas antigas

As flores dão devaneio
Colorem pétalas das coisas que não pude
 
Anjo da guarda é minha sombra
Gentileza delicada de vigiar minhas entradas e saídas
Adoro, e lembro-me de bolinhas brancas em vermelhas sombrinhas

Desmancho minhas tristezas com dedos enroscados no cabelo
Para lambuzar sorrisos, miro sonetos
O que bebo feliz são vinhos com pouco agreste
Espelhos são atraídos se me veem

As esquinas de pôr de sol como destino
são embaladas em letras dourado-azuladas
Para fazer história sem palavras
Cantigas são como ninar a madrugada

Disponho de catracas para liberar realidades
Se estiver só, penso sanatório
Divido cada coisa em tempos separados
Que tiro sem pudor: que para mim desde "sempres", quer dizer ter vergonhas
da gente mesmo

Minha menina está repartida
Cresce em árvores solitárias
Engrandecida como milharal e lua
Perdida como doninha com cara de todo dia

Não devia parar
Sempre penso em amarelo vespertino
Porque as coisas que se deixam ver
Vislumbram do coração
Despedidas são jardins secretos
E segredos são como
palavras que pousam no ar.
 


terça-feira, 16 de julho de 2013

Laís


Ela não entendia os limites da pele e então tudo era mistura. As cores da cidade o barulho da cidade a dor do homem debaixo do viaduto os odores todos as alegrias e ansiedades eram e são ela. Era como se não houvesse fronteira era tudo encaixado na mesma massa no mesmo espaço. Ela era a rua a rua entrava nela e juntas eram uma coisa outra e a mesma coisa.
 
Tinha sempre a sensação de que era meio fora de foco para o outro, aquele que nunca é estranho - já que a compõe. É parte e não pertence. Ela é o outro e esse nem faz ideia.
 
Se fixasse bem o olhar no espelho percebia facilmente as linhas de vários tons que se esforçavam para dar-lhe um rosto. Os olhos envoltos por linhas azuladas pretas marrons e brancas emaranhavam-se para definir os cílios as pálpebras móveis as íris as olheiras. Era costura trabalhada ponto pós ponto na esperança de constituir alguma distância por menor que fosse do que ela supunha ser externo.
 
Ela sempre sentiu-se como um rascunho de si mesma.
 
 
 
Texto: Val Prochnow.
Imagem: Autor desconhecido.


segunda-feira, 1 de julho de 2013

...



Para Ferreira Gullar
em 16 de maio de 2013
 
 
Juventude
ou é passado
ou é futuro.
 
juventude é o que não é
 
é o vício do viço
e o viço é utopia
 
                      atemporal
 
juvenília-sonho,
primavera:
no ontem, será; será-seria
já no hoje, lembrança
 
umacrônica nostalgia
da vida
que nunca - é
 
                      e já nem foi;
                      e nem nunca é mais.
 
                                                                       Mancebia é uma ideia
                                                                       que se concebia - concebe - conceberá
                                                                      
                                                                                   demente
                                                                                   do tempo;
 
                                                                                              e que o tempo
                                                                                              desmente
 
                                                                                  que nem foi e nem nunca será;
 
                                                                                                                   que anteser
                                                                                                                   nem mais é
 
                                                                                  inmomento
                                                                                  vida acrônica; não vida crônica.
 
Desperta do sono
           em ânsia da primavera
           mas 'inda é em sonho
e já sonhas n'outono
 
           desesperabre os olhos:
o inverno
- implavável -
os congela
 
 
Se existe é no inverno
inconsciência invernal
 
jovemorte
atemporalimbo.
 
 
 
Poesia: Ewerton Martins Ribeiro.
Imagem:
Daniel Melvim.

sexta-feira, 21 de junho de 2013

Poema sem título (ou seria poema sem vergonha?)


POEMA SEM AR
 

Eu disse que precisava partir
e que nada é assim
tão preciso, tão ruim
mas que precisava ir.
 
Eu me apaixonei por outra.
Fiquei mudo - perdi
o sono, o tino, o rumo;
quase larguei tudo.
 
Pela amiga, eu fui atropelado.
Concebida a imprevisibilidade,
o momento de descuido,
o espanto, o espasmo,
acaso dos acasos
neste caso, talvez, de amor.
 
O amor é entregue,
coisa linda, leve,
de quem sabe que a vida,
muito mais que louca,
é breve.
 
 
 
Poesia: Daniel Rubens Prado.
Imagem:Jib Peter.


quinta-feira, 16 de maio de 2013

Clichê or not clichê


Um emaranhado de pequenos fracassos que triunfam em cima da sua esperança de amor.
Você escreve os melhores versos sofrendo as maiores desilusões. Você separa a garrafa de vinho, o papel em branco, derrama algumas lágrimas para compor o cenário e verte as palavras certeiras, a agonia presa no seu coração combalido. Os amores perdidos te ajudam a abrir os olhos pelas manhãs porque te lembram que uma nova linha pode ser escrita. Todas as paixões destruídas te fazem sentar naquele mesmo bar, pedir aquela mesma cerveja, naquele mesmo copo - e lembrar daqueles tantos colos, belchior - e rabiscar no guardanapo o poema que faltava. Todos os sonhos escurecidos pela madrugada solitária nos fazem companhia diante das teclas furiosas que ensaiam uma nova página. O duro golpe do desamor é o que nos move, o que nos faz pisar na esperança para depois vê-la ressurgir numa esquina do centro, num pastel de rua, numa marca de batom. Tantas pancadas do amor que, quando ele nos afaga, perdemos os versos, não sabemos mais que palavra usar. Tantas rasteiras da incerteza, tanta falta de coragem, que a inspiração vem da tentativa de capturar esse outro que nos escapa a todo o tempo. Tanto poderia ter sido, que a porrada de ser bate tão forte que nos derruba. E do chão jorra a palavra.
E o que eu queria dizer - e nem sei se disse - é que é mais difícil falar de amor amando.

quarta-feira, 10 de abril de 2013

Nosso carnaval

 
Do escuro da casa de dança, sua voz calma, como se
fosse luz, brilhou tanto que ofuscou a multidão e
congelou o tempo. Arteiro, certeiro, suas palavras
sempre exatas e sua mão, quando dada à minha,
parecem interromper o movimento do meu caminho
corda bamba, melhorando minha passada, minha
viagem, apaziguando parte de minh'alma que anda
penada, mas atordoando o meu peito, que de novo
bate, urgentemente, no compasso desse nosso
carnaval.
 
 
 

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

O POETA, O VIOLÃO E A PATERNIDADE

 
No caminho para mais uma reunião, o trânsito era intenso na Lagoa Rodrigo de Freitas. Que sorte. Com isso, pude perceber o cartaz que anunciava o show, a ser realizado naquela mesma data.

Entre uma viagem e outra, era mesmo muita coincidência estar na cidade na mesma noite em que o mestre Toquinho se apresentaria, com apenas um banquinho e um violão.

Já havia tido o privilégio de acompanhar um dos seus shows, na boníssima companhia de verdadeiros irmãos. Como se não bastassem as letras e melodias imortais que aprendemos a apreciar, literalmente, desde a infância, Toquinho ainda irradia uma simpatia aconchegante e conta, descontraído, casos antológicos por trás de cada composição que se segue durante o espetáculo. Assim, dessa vez, fiz questão de ir cumprimentá-lo após o show.

Entre breves palavras, acompanhado da minha irmã, tive a oportunidade de dizer ao mestre que apenas recentemente conheci uma de suas composições com Vinícius: O Filho Que Eu Quero Ter.

Disse a ele que, com a minha esposa grávida da nossa primeira filha, deparei-me, pela primeira vez, com essa música. Admirado, busquei o texto. Acompanhei as letras junto com a música até que, no meio da canção, já não conseguia mais ler, pois as lágrimas ofuscavam-me a vista.

Toquinho, então, contou-me que, certa feita, entrou no quarto de Vinícius e deparou-se com o poeta muito emocionado, aos prantos sobre sua mesa de leitura. Ele havia acabado de finalizar as letras para O Filho Que Eu Quero Ter.

Na presença do mestre, senti meus olhos novamente se enchendo d`água.

Garanto que não apenas os hormônios maternos são alterados pela maravilhosa sensação da gravidez. Os paternos também.
 
 
Texto: Leonardo Ladeira.
Escute a música aqui.




O FILHO QUE EU QUERO TER
 
É comum a gente sonhar, eu sei
Quando vem o entardecer
Pois eu também dei de sonhar
Um sonho lindo de morrer
Vejo um berço e nele eu me debruçar
Com o pranto a me correr
E assim, chorando, acalentar
O filho que eu quero ter
Dorme, meu pequenininho
Dorme que a noite já vem
Teu pai está muito sozinho
De tanto amor que ele tem

De repente o vejo se transformar
Num menino igual a mim
Que vem correndo me beijar
Quando eu chegar lá de onde vim
Um menino sempre a me perguntar
Um porquê que não tem fim
Um filho a quem só queira bem
E a quem só diga que sim
Dorme, menino levado
Dorme que a vida já vem
Teu pai está muito cansado
De tanta dor que ele tem

Quando a vida enfim me quiser levar
Pelo tanto que me deu
Sentir-lhe a barba me roçar
No derradeiro beijo seu
E ao sentir também sua mão vedar
Meu olhar dos olhos seus
Ouvir-lhe a voz a me embalar
Num acalanto de adeus
Dorme, meu pai, sem cuidado
Dorme que ao entardecer
Teu filho sonha acordado
Com o filho que ele quer ter

(Vinícius de Moraes e Toquinho)


quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Raro Efeito


 

Para T.C.B.
 
 
Beijo de musa, beijo de música,
choro, samba, encanto,
encanto que ilumina encanto
que em algum canto canta Noel e outros bambas.
 
Floresce ensolarada fascina
noctívaga na ilha
sobe à luz da Lua
louvada seja sempre levada
contida cantiga de amor
docemente embriagada
 
Menina maré, moça distante
desatino no fundo do olhar
verso achado na canção do vento
verso menino poema de amor lançado
poesia engarrafada desce o rio...
 
É Minas em busca do mar.
 
 
Poesia: Daniel Rubens Prado.
Imagem: Sérgio Aguirre.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Horizontalidade



O vale é vertical
as casas entre as montanhas
um pedaço de terra,
um pedaço de céu,
um pedaço de vida
entre montanhas
O padre, o pai, eu
entre montanhas
um dia transgressão da geografia
vi o horizonte. Lá onde se vê o horizonte os discursos se obnubilam - horizontalizam-se
o infinito fica a mostra
perde-se
                                                                                                                                              ou eu
                                                                        sou
                                                                                                                                                    tu
                                                                       agora


Poesia: Maiara Knihs.
Imagem: Thierry-Hennet.
 

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

O Parto de um Texto (ou Maquiagem e Morfina)

 
O ócio atormentado erige a pena que, seringa cheia de um suor que escorre por dentro, investe palavras contra a alvura do papel tornando-o mais puro na media que macula.
 
O tormento provém do que fere a alma, sangra os princípios e derruba os dogmas tão arduamente construídos com a brisa que a musa, êmbolo precípuo de tudo, forma simplesmente por existir.
 
A musa, parto inverso (nasce pra dentro), violenta a vítima cingindo a navalha que causa o corte, que causa a dor, que causa o texto, que se finge de cura.

Cura que entorpece ao mesmo tempo que vicia.

Maquiagem que morfina,
Morfina que disfarça,
Morfina que vicia,
Morfina que me nina.
 
 
 
Texto: Igor Kolling Maciel.
Imagem: Fahad Alkadi.


segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Doce caminho

 
queria não ter essa cara amassada
esses olhos cansados
e o coração estranho
 
queria ser o que não fui
mas sou o passado
com o corpo podre e gasto
 
mas gosto de abrir a janela
e ver essas manhãs cinzas
me batendo nos cabelos
 
ainda posso ouvir os stones
dylan e joplin tom e chico no sofá de casa
ainda posso ler poemas e ver bons filmes
fumar o meu cigarro sem grilhões
e beber meu vinho sossegadamente
 
parece que o caminho para a morte
pode ser mais doce em dias como esses
 
 
Poesia: Adriana Godoy.
Imagem: Rafa Godoy.


segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Fio do mundo


Eu acredito em pássaros e nuvens
porque são leves e porque passam.
Eu tenho fé naquela que desvia o olhar,
mas me acerta com um beijo.
Eu vejo campos verdes
porque a cidade está morta.
 
Poesia e imagem: Daniel Rubens Prado.