
quarta-feira, 8 de dezembro de 2010
domingo, 5 de dezembro de 2010
As coisas circenses

Uma pequena pausa. A hora quarta já está pelo fio de five minutes. Inverno de agosto. O céu de brigadeiro. Azulzíssimo com raios de inversão térmica.
Pondero sobre aquela coisa circense de irmã mais velha. O telefone já tinha tocado, já tínhamos conversado e quando reli uma petit carta, quase pouco petit antiga, vi toda a cena. Um vestido florido de botões miúdos. Solto. Um cabelo já como manda as regras a partir dos quarenta, bem curto. Embora odeie cabelos curtos e adore as saias.
E um portão de ferro, batido e velho, claro como ou mais que a irmã.
Uma conversa pequena. Um café antes de sair. Lembranças de uma carona pairando sobre a cena. Reticências.
Talvez mini flashbacks, que lembram biscoitos água e sal temperados. Não te parece?
Agora vem o circo. E as coisas ensaiadas: um último conselho entre aquelas coisas de parte, não parte. Um recado tardio lançado com a mão levemente. E uma última pergunta sobre aquele amigo que faltou nas conversas lá de dentro.
Mas a hora chega - mais uma olhada e uma saída com uma frase estalada para fazer rir. Já de costas, a cabeça balança um pensamentozinho bom.
O portão range que range e mais uma graciosidade vem para se despedir:
- Cê vai ao circo???
E lá de longe a resposta irônica e desejada:
- Sempre!
A lona cai. Os deveres de dentro chamam. Os passos atravessam a rua estendida.
Outros circos virão: trapezistas, elefantes, zebras. Quando muito, cães amestrados e nós, irmãos, às vezes de mágicos, às vezes de palhaços.
Pondero sobre aquela coisa circense de irmã mais velha. O telefone já tinha tocado, já tínhamos conversado e quando reli uma petit carta, quase pouco petit antiga, vi toda a cena. Um vestido florido de botões miúdos. Solto. Um cabelo já como manda as regras a partir dos quarenta, bem curto. Embora odeie cabelos curtos e adore as saias.
E um portão de ferro, batido e velho, claro como ou mais que a irmã.
Uma conversa pequena. Um café antes de sair. Lembranças de uma carona pairando sobre a cena. Reticências.
Talvez mini flashbacks, que lembram biscoitos água e sal temperados. Não te parece?
Agora vem o circo. E as coisas ensaiadas: um último conselho entre aquelas coisas de parte, não parte. Um recado tardio lançado com a mão levemente. E uma última pergunta sobre aquele amigo que faltou nas conversas lá de dentro.
Mas a hora chega - mais uma olhada e uma saída com uma frase estalada para fazer rir. Já de costas, a cabeça balança um pensamentozinho bom.
O portão range que range e mais uma graciosidade vem para se despedir:
- Cê vai ao circo???
E lá de longe a resposta irônica e desejada:
- Sempre!
A lona cai. Os deveres de dentro chamam. Os passos atravessam a rua estendida.
Outros circos virão: trapezistas, elefantes, zebras. Quando muito, cães amestrados e nós, irmãos, às vezes de mágicos, às vezes de palhaços.
segunda-feira, 29 de novembro de 2010
Nem mias

tarde triste
tarde feliz
repousa ante o meu nariz
não, eu não sou a tarde
sou feliz sem ser felicidade
e você
quem é?
entrou
se despiu
entrou
saiu
rapidamente
deixou
vazio
somente
entrou
saiu
sem pensar
pensou ressalvar
ressalvou sua pele
sem um arranhão
não sei arranhar
garanhão!
não sei arranhar
não escondo
minhas garras
mas jogo assim
não é pra ganhar
não pra mim
perder sim
assim ganhamos
sempre
tarde feliz
repousa ante o meu nariz
não, eu não sou a tarde
sou feliz sem ser felicidade
e você
quem é?
entrou
se despiu
entrou
saiu
rapidamente
deixou
vazio
somente
entrou
saiu
sem pensar
pensou ressalvar
ressalvou sua pele
sem um arranhão
não sei arranhar
garanhão!
não sei arranhar
não escondo
minhas garras
mas jogo assim
não é pra ganhar
não pra mim
perder sim
assim ganhamos
sempre
quarta-feira, 17 de novembro de 2010
Eduba Mesopotâmica
Acordo cansada
Triste acabada
Mas, mesmo assim me levanto
Num pranto
Gritaria pra todo lado
Papai grita: estou atrasado!
Mamãe grita: pare com esse choro atordoado!
Então tá:
Na escola vou ficar
Estudar, decorar
Tudo igual
Desconfortável
Nossa, quantos clones! Uau!
Vamos, começou!
Professora pede, a gente repete.
Quem erra se borra.
Lavem a palmatória.
3x2=6 3x1=3
De repente vem uma vontade...
Preciso ir ao banheiro.
Mas, se a professora souber,
Me bate.
Chegou o intervalo
Vou comer
E como uma estrela cadente
O tempo passa a correr
Logo vamos para a sala
Cada cadeira em sua ala
Agora é só estudar,
Aprender, decorar.
Até que enfim
A tarde passou
Vamos para o quarto
Comer doces sem fim
Mas chega a senhora, apaga a luz e fala: não façam hora!
Então é agora!
Fecho os olhos,
Mas a dor não vai embora.
A dor me aflige.
Penso: fecha os olhos e finge.
Mas não dá
A dor em mim está a aflorar
A dor da saudade
Da humilhação
Quero fugir da escola
Fugir do meu coração
Quero viver a infância
Quero respeito
Quero meus direitos!
Triste acabada
Mas, mesmo assim me levanto
Num pranto
Gritaria pra todo lado
Papai grita: estou atrasado!
Mamãe grita: pare com esse choro atordoado!
Então tá:
Na escola vou ficar
Estudar, decorar
Tudo igual
Desconfortável
Nossa, quantos clones! Uau!
Vamos, começou!
Professora pede, a gente repete.
Quem erra se borra.
Lavem a palmatória.
3x2=6 3x1=3
De repente vem uma vontade...
Preciso ir ao banheiro.
Mas, se a professora souber,
Me bate.
Chegou o intervalo
Vou comer
E como uma estrela cadente
O tempo passa a correr
Logo vamos para a sala
Cada cadeira em sua ala
Agora é só estudar,
Aprender, decorar.
Até que enfim
A tarde passou
Vamos para o quarto
Comer doces sem fim
Mas chega a senhora, apaga a luz e fala: não façam hora!
Então é agora!
Fecho os olhos,
Mas a dor não vai embora.
A dor me aflige.
Penso: fecha os olhos e finge.
Mas não dá
A dor em mim está a aflorar
A dor da saudade
Da humilhação
Quero fugir da escola
Fugir do meu coração
Quero viver a infância
Quero respeito
Quero meus direitos!
Texto: Júlia Pereira Vargas.
Imagem: Filme "The Wall", do Pink Floyd.
sexta-feira, 22 de outubro de 2010

O que eu sinto é um nada.
É um nada cheio de inquietações e dores se retorcendo dentro de mim.
É um grito feio, gutural, fétido e nojento.
Quero me afastar de mim.
Preciso.
Não sei por que os caminhos sempre levam ao mesmo lugar.
Estou sempre de volta ao ponto de partida.
Não posso mais percorrer as mesmas veredas se elas não me fazem chegar aonde eu quero.
Eu sempre busquei pelo mar, pelo sol, pela claridade.
Hoje só quero que meus passos me levem a algum lugar onde ainda não fui.
Por onde andará a minha alma?
Meias verdades.
Sempre meias verdades.
Ainda não conheço o fundamental das coisas.
É um nada cheio de inquietações e dores se retorcendo dentro de mim.
É um grito feio, gutural, fétido e nojento.
Quero me afastar de mim.
Preciso.
Não sei por que os caminhos sempre levam ao mesmo lugar.
Estou sempre de volta ao ponto de partida.
Não posso mais percorrer as mesmas veredas se elas não me fazem chegar aonde eu quero.
Eu sempre busquei pelo mar, pelo sol, pela claridade.
Hoje só quero que meus passos me levem a algum lugar onde ainda não fui.
Por onde andará a minha alma?
Meias verdades.
Sempre meias verdades.
Ainda não conheço o fundamental das coisas.
Texto: Marcela Chaves.
Imagem: Charlotte Rutherford.
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