terça-feira, 19 de agosto de 2008

CACTOS


A sombra me persegue,
Sob a névoa
Não consigo me mover.
Sou incompreendido,
Preso em um muro
Ou em meu próprio pensamento.
Meus olhos já não fixam em algum lugar,
Como a lua pára para te olhar.
Estes vilipendiados olhos
Doem, choram e imploram
Para que fiquem só.
Não consigo me livrar
Do infortúnio calar.
Sinto pessoas a me olhar,
Como um animal devora
A sua insípida carniça.
Creio que irão matar-me.
Sinto-me desprotegido, frágil, inútil.
Sinto-me sem amor, sem dor e sem desejo.
Já não sei o que fazer,
Procuro a solidão
Para que a minha trágica energia
Não contagie as pessoas.
Para que o meu olhar
Não cruze com os demais.
Assim terei meus próprios sentimentos,
Meu próprio coração,
Que a cada despertar
Encontra o silêncio.
Estou surdo e cego,
Estou inválido.
Submeto-me ao inoportuno desespero,
Ao incômodo calar.
Viver agora dói,
Não mais a quero.

segunda-feira, 11 de agosto de 2008



Nosso mais novo eutanástico, o jornalista Pablo Casarino, resolveu dar as caras e nos contar um pouco da sua experiência em terras africanas. Antes de qualquer poesia ou transbordamento lírico, o nosso correspondente em Moçambique nos mostra a realidade dos seus mais novos amigos.

Bem-vindo ao Projeto Eutanásia, Pablito!


Isso é África!

Há seis meses na África, precisamente Moçambique, pude verificar o quanto essa terra é rica, porém subjugada nas mãos dos exploradores da indústria da fome. Pude perceber muitos contrastes. Nunca observei tantos carros de luxo a circular pelas ruas. Difícil se deparar aqui com uma dessas “furrecas” que encontramos em nosso país, interrompendo o trânsito e provocando quilômetros de engarrafamento. Empresas estrangeiras e organizações não governamentais utilizam veículos de luxo por, no máximo, um ano – e, ao aparecer o menor dos defeitos, cuidam de os exportarem para algum parente por preços irrisórios, trocando-os por novos.


As ONGs (não quero generalizar) vêem nesse pobre continente, uma forma de maximizar seus lucros, às custas dos que mais precisam de ajuda humanitária. Ajuda esta que não se resume apenas em alimento, vestuário, material escolar ou medicamentos, mas também em uma dose de carinho e atenção. “Estamos aqui, não queremos ser apenas seus bancos”.


Vivemos brigando e fazendo campanha contra o trabalho infantil no Brasil. Aqui, meus caros amigos, campanhas com esse cunho, significaria bater em ferro frio. Até hoje, não consigo me conformar em ver como crianças tão pequenas, ou miúdas, como se denominam aqui, são capazes de carregar fardos de diferentes géneros alimentícios na cabeça – arroz, milho, tomate, papaia, alface, etc, como se ali carregassem toda a tristeza do mundo. E o pior: são, a todo momento, questionadas sobre os preços dos produtos vendidos, entregando-os a valores mínimos, não obtendo sequer o lucro suficiente para novamente encher os cestos na manhã seguinte para continuar a labuta.


Pois é, as crianças. Muitas são as formas de exploração a que são submetidas as crianças nesse velho mundo. Mesmo antes de terem seus corpos formados, crianças, principalmente meninas, já se iniciam na vida sexual. Bandidos, assim os denomino, estrangeiros ou locais, acham normal manter relações sexuais com meninas de quatorze anos ou até menos. Denominam essas crianças de “quatorzinhas”. Brincam na maior naturalidade em mesas de bar: “essa é a minha saideira, tem uma quatorzinha me esperando em casa”. Letras de bandas famosas fazem referência a essas “quatorzinhas” em suas canções, como sendo troféus, principalmente nas mãos de homens que serviriam para serem seus avós. Juro, meus caros, que chorei ao ver essa constatação. Crianças que são pegas na porta de casa, ainda com bonecas nas mãos e com o consentimento dos pais, que ao final do mês, recebem uma merreca de meticais (moeda local), para ajudar no sustento da família.


Dentre as inúmeras coisas que me incomodam, queria ainda fazer alusão a só mais três que acho primordial destacar. Defendendo um pouco o público feminino, um fator que me deixa irritado é a forma em que muitas mulheres ainda são tratadas aqui. Vivem como se fossem “As Mulheres de Atenas” de Chico Buarque. Atingiram um grau de independência trabalhando fora de casa, ocupando importantes cargos públicos, porém ainda não são tratadas com o devido respeito que merecem. Vivem como se fossem serviçais de seus maridos.


Os empregados aqui, de qualquer espécie, principalmente os domésticos, são tratados (outra vez, sem querer generalizar) como escravos. Regra-se tudo. Ganham em três meses o que eu gasto aqui em uma noite, com amigos num buteco. Possuem uma carga de trabalho super cansativa. Muitos trabalham de seis da manhã às dezessete horas, fazendo de tudo. Isso me chateia muito. Algumas pessoas acham um grande absurdo minha funcionária ganhar novecentos meticais, chegar às oito da manhã e sair às quatorze. Mas eu não consigo mudar o mundo não é. Tento dar minha contribuição, porém....
A questão da disseminação da Aids. Não sou pessimista, mas acho que ainda está um pouco longe para os africanos conhecerem uma geração com baixos índices de soro positivos. Não sei se por uma questão cultural (ainda está muito cedo para eu poder fazer um julgamento preciso) porém, a poligamia aqui é coisa quase corriqueira. Muitos homens possuem mais de uma família, ou mantém relações extraconjugais. Nada melhor para a disseminação de uma doença que sem parecer exagerado, está promovendo uma verdadeira devastação no continente.


Mas, quero frisar que minha intenção, principalmente ao escrever pela primeira vez para o “Projeto Eutanásia”, não é a de oferecer aos leitores algo tão pesado e carregado de informações tristes. Poderia ter enviado uma poesia, uma crônica, um conto... Porém, entendam isso como um desabafo, escrito sem me preocupar com nenhum padrão estilístico, nem com formas. Escrito como um verdadeiro escarro, tapa na cara. Coice. Soco na boca do estômago. Não quero entrar com o pé esquerdo, e sim, despir-me de toda a parte que me aflige aqui neste continente, para poder assim, enviar-lhes posteriormente belas informações sobre as maravilhas que se pode encontrar por aqui. Não se vê apenas coisas que nos entristecem aqui nesse lado do mundo. Pelo contrário. Quando digo de contraste, o que mais se contrasta aqui na África, e especialmente onde estou, Moçambique, são as dores com as lindas cores; paisagens, povo receptivo, com alegria de viver, mantendo-se fortes perante as adversidades.

Texto e imagens: Pablo Casarino.

quarta-feira, 30 de julho de 2008

Breve história de um anjo


No fim da tarde, antes da primeira estrela aparecer no céu, um anjo triste e sonhador pairou no ar da cidade. Poucos o viram, pois nessa cidade, cercada por prédios e fumaça, quase ninguém mais olha para o céu.

Apenas uma menininha, dessas que os anjos nunca se esquecem, lançou seu olhar despreocupado para cima. E, em meio à fumaça e ao resto dos raios de sol, fez com que o anjo triste sorrisse.



Imagem: Bhavna.

terça-feira, 8 de julho de 2008

Discutindo Saudade


Saudade é um vocábulo próprio do nosso idioma, afirmam os portugueses. Se o é realmente ninguém pôde provar, tampouco o conseguiram um sinônimo em outras línguas. Os estrangeiros, ao aprenderem tal palavra, encontram um substantivo que nomeia o sentimento de ausência de uma pessoa ou lugar.

Nós, os filhos deste Gigante Tropical, tínhamos que inventar ou buscar nos recônditos da prosa do rei de Portugal D. Duarte, onde saudade se escreve suidade, uma denominação para o calor que o coração latino exala ao se afastar dos seus amores e bem-quereres.

A saudade está presente nas relações do brasileiro, por natureza. Outros povos poderiam questionar, e eu entenderia perfeitamente tal questionamento, o que vem a ser essa danada. Nenhum espaço apertado de um papel fibroso, ou como impõe a modernidade – nenhuma folha computadorizada, nenhuma reflexão ligeira e nem um minuto de imaginação, bastariam para garantir, numa única palavrinha, o seu sincero significado. Em alguns idiomas precisaríamos de uma frase inteira para expressar esse calor feiticeiro.

Os curiosos se perguntam onde nasceu e o que é a saudade. Ela já virou monografia, tese de lingüística, ocupou o tempo de catedráticos, foi motivo de insônia a discentes excepcionais, e nem assim chegou-se a uma conclusão confiável.

O fato é que saudade é coisa nossa, brasileira, e como expressão singular, há de denominar sentimentos complexos. Saudade é o choque de temperatura: quando fervemos de emoção e uma onda fria põe-se a nos resfriar, sentimos no peito um peso maldito... é a saudade; e quando um fogo abrasador derrete a geleira do coração, despedimo-nos da dor e sentimos a alma flutuar... sim, flutuar, pois saudade pode ser serena ou turbilhão.

Saudade é tudo, é a falta de membro num corpo são.

O beijo de despedida compartilhado rapidamente no portão, motivando suores embaixo do lençol pela madrugada afora, é a saudade cúmplice. Uma lágrima voluntariosa que inunda o túmulo dos entes queridos em dias de finados, certamente é saudade fatal. O estremecer do corpo estirado numa cama solitária de hotel é saudade parceira. O filho que ainda não veio é saudade esperança. Os lugares desconhecidos, é a saudade sonhadora, e as recordações de ontem é saudade imediata. O arrumar fotos no álbum de formatura, ah... é a deliciosa saudade primavera! O bilhete aéreo da lua-de-mel encontrado na mudança resultante da separação, que pena, carimbou-se de saudade dividida. E... sempre, o ronronar ancião que emerge das cadeiras de balanço, delicadamente dispostas de viés na varanda ensolarada, aonde as avós se põem a recordar o passado, só pode ser a saudade afortunada.

Por descender de um império a saudade é forte e lustrosa, destemida e conquistadora; mas assim como foram vencidos os romanos, vencemos dia a dia as aparições febris desta espécie de lembrança dolorosa. Mas... como garantir que a saudade nasceu de solitas, solitatis? A saudade pode ter se enfronhado, se debatido com outros tantos povos ancestrais... ela pode, por exemplo, ser namorada do durere – romeno amargo que por si só nos esclarece a dor; ou prima robusta do crioulo cabo-verdiano que nos segreda anseios num doce gemido de sodadi.

Mesmo após decifrar sua linhagem, expor as suas ramificações, preferencialmente em forma de diagrama ovalado, o Brasil ainda há de perguntá-la: porque viajastes tanto antes de descansar sobre os meus coqueirais?

Hoje penso, finalmente, e insisto em acreditar, que a saudade veio das fronteiras da Espanha, sob escrita arredondada de soidade, para ser expressão primeira do povo brasileiro. Após a sua partida, os galegos choram desolados, compreensível, restaram-lhe apenas soledad.

Antes de classificá-la com um nome ou apelido, o país já se perdia nas vertigens desse enorme sentimento. Então, eu me pergunto: que me importa saber de onde veio esta palavra apimentada se ouço a sua voz em todas as tardes assombradas? O importante, não há dúvida, é destacar que o seu inventor, seja ele quem for, esqueceu-se de emprestar à saudade, uma cor qualificada. Se o amor é azul, há que se pintar a saudade de branco, de ausente; porém, se acaso ela cobrir os pensamentos com todos os raios luminosos visíveis incidentes, há que aceitar a sua verdadeira origem: a saudade veio da composição elementar de um instante obscuro.
Texto: Stael Gontijo.
Imagem: Pamela Masik, da coleção Pain in the Faces.