segunda-feira, 29 de junho de 2009

Crise. Que crise?


Era um mês de janeiro. Às margens do Rio Graipu, o distrito do Correntinho, humilde distrito do glorioso município de São Miguel y Almas de Guanhães, sofria sob uma chuva torrencial. Do céu cinzento desciam contínuos aguaceiros, mais fortes do que jato de chuveiro de motel cinco estrelas.

Não era só a chuva, mas os tempos, em geral, estavam difíceis para o vilarejo. A quebradeira era geral. Todos tinham dívidas, o dinheiro sumira da praça. No caso, pracinha, pois Correntinho era um cochichó de distrito. Tudo era no fiado, no beiço, no pago-amanhã. Uma tristeza.

Pois foi num dia desse janeiro chuvoso que chegou a Correntinho um viajante abonado. Dirigindo um jipe com cara de ter saído recentemente do berço, digo, fábrica. Ao descer na porta da única pensão do Correntinho, comprovou sua condição de abonado ao entrar no saguão (?) batendo um espetacular par de botas, metido num não menos competente par de galochas. E essa aparição nababesca completou-se com a figura do cidadão abrigada sob um vistoso chapéu Cury - “o chapéu para quem tem cabeça”- e uma capa Ideal estalando de nova. Tão nova que, mesmo molhada até os sovacos, nem exalava aquele pavoroso fedor de cachorro molhado.
Entrada triunfal completada, o distinto recém-chegado vai até o balcão da portaria, espicha uma nota de 100 cruzeiros e informa ao Seu Millô, porteiro, dono e guarda-livros da pensão:
– Os quartos são lá em cima, não? Depois daquela escadinha, né? Eu mesmo vou lá escolher um.

Nem esperou resposta. Dirigiu-se logo para a escada, ao mesmo tempo em que Seu Millô, rinchando de satisfação, passa a mão na nota de 100 cruzeiros. E sai porta e chuva afora correndo, a fim de pagar sua dívida com o açougueiro.

O açougueiro, que nem sonhava com dinheiro vivo, ainda mais debaixo de um chuvaréu daqueles, emitiu um caloroso rosnado de agradecimento. Despachou Seu Millô e saiu, também correndo, para pagar ao seu fornecedor de carne, o criador de gado Seu Marçal, que, felizmente, era seu vizinho.

Seu Marçal, agradavelmente surpreendido ao enrolar um cigarro de palha, recebeu, aturdido, aquele dinheiro que não esperava. Resmungou uma desculpa para a mulher que labutava no interior da casa e, tal qual gato andando em desenho animado, deslizou, sorrateiro, para a chuvarada que caía lá fora. Corre apressado pelas quinas da rua, com jeito de espião na II Grande Guerra, para acertar as contas com a prostituta Basti, que, exatamente por causa da crise, dera fiado pra ele (quatro vezes).

Cuja Basti, agradecendo com um beijo que breou de batom o assustado Seu Marçal, voa para o hotel, chama Seu Millô e paga a ele o aluguel, atrasado, do quarto que usava para atender à sua escassa, porém fiel clientela.

No exato momento em que a transação foi efetuada, o viajante, fazendo cara de entojado, volta ao saguão do hotel e demole Seu Millô, informando:

- Escolhi um quarto lá em cima e resolvi tirar uma soneca. Um desastre. Mal mal peguei no sono, fui atacado por uma manada de pulgas que me ferroaram todo. E, pior: uma esquadrilha de burrachudos quase me devorou vivo. Onde já se viu burrachudo de dia, Seu Millô? Num fico aqui nem morto. Me dá meu dinheiro de volta. Tô sumindo.

Recebe os 100 cruzeiros de volta, dá um toque na aba do chapéu, entra no jipe e escafede.
Seu Millô, com um jeito de nem tchum para o viajante, ilumina a cara num sorriso por descobrir que essa tal de crise é invenção do povo dos jornais, pois a solução tava ali, na cara: cada um paga o que deve, honra os compromissos, e a vida vai em frente.

Tão em frente que merece, no mínimo, uma comemorada.

- Quer saber? Oi, Teresa, traz uma cachacinha aí pra mim. Com um torresminho, pode ser?


Melchiades Cherubino
Imagem: Internet.

quarta-feira, 17 de junho de 2009

terça-feira, 2 de junho de 2009

A FACA E O QUEIJO


Entre todos os dons, o de me deixar partir.
Sempre me abandona pelas mãos.
Faz saber-me seu para dizer adeus.




Texto: Djalma Gonçalves.
Imagem: Hungry For Your Touch, 1971, por Jan Saudek.

quinta-feira, 28 de maio de 2009

Capeirote


“As crianças não têm passado, nem futuro,
e coisa que nunca nos acontece,
gozam o presente”.

Jean de La Bruyère
Quando criança, passava boa parte do tempo na Terra do Nunca. O sobrado de dois andares, branco encardido e com uma fachada capaz de fazer qualquer arquiteto rasgar o diploma, era muito mais que um lar. Os muros chapiscados, que dividiam meu espaço com o dos vizinhos, se impunham como imensas barreiras a serem transpostas, pedindo "por favor" para que alguém as escalasse. Foi uma infância nos ares, subindo, descendo e andando sobre muros e mais muros, com uma destreza e um equilíbrio que só poderiam ser explicados caso meus pais fossem trapezistas ou algo do gênero.

A vida seguia. E eu seguia sobre os muros. Vez ou outra me arriscava e invadia um novo território. Descia em quintais alheios e o coração infantil, influenciado por uma mente fantasiosa, fazia com que meu corpo crispasse. Naquela época não sabia o significado da palavra adrenalina, mas, se soubesse, conseguiria definir a sensação de tocar pela primeira vez em um solo nunca antes explorado. Ser criança é assim: enxerga o mágico onde os adultos só vislumbram o óbvio.

Nós, crianças, apesar dos meus 87 anos, somos capazes de transformar as incursões no quintal do vizinho em uma aventura inenarrável. Subvertemos a realidade em benefício de um prazer inocente, pueril. Vivemos iguais aos manuais de auto-ajuda, dia após dia, saboreando cada momento como se fosse único.

A cada fruta roubada (criança não furta, rouba) das centenas, milhares de árvores que cresciam e floresciam nos quintais vizinhos, eu jogava a realidade por terra, fazendo com que ela perdesse sua força, sua vocação para a chatice, para a falta de graça. Nessas horas, com o bolso da bermuda recheado de frutas, me sentia um usurpador, pronto para conquistar novos mundos e levar comigo o bem mais precioso de cada recanto - na maioria dos casos, uma carambola, uma manga e, quando não dava sorte, alguns limões enrugados.

A infância seguia. E eu seguia sobre os muros. Hoje, aos 87 anos, voltei a pensar e agir como uma criança. Não escalo mais muros devido a uma osteoporose que me pegou de repente. Mas continuo roubando algumas frutas nas gôndolas dos hipermercados só para sentir novamente aquela adrenalina de outrora. Só para lembrar que um dia fui menino, fui moleque, fui criança. Para jamais esquecer que, no dia em que meus pés tocaram pela primeira vez o solo do quintal de um vizinho chamado Antônio, a minha vida ganhou um novo colorido. À sombra de uma imensa goiabeira, um casal de adolescentes se abraçava e se beijava com uma volúpia e uma beleza suficientemente fortes para deixar as goiabas vermelhas por dentro e também por fora. Foi nessa hora que a minha infância começou a flertar com o mundo adulto. E foi exatamente nessa hora que tive vontade de pegar meu capeirote e sair dali voando igual aos super-heróis da Marvel. Ainda era muito cedo para deixar de ser criança.
Texto: Guilherme Carvalho.

segunda-feira, 25 de maio de 2009

Pedido ao Deus-Sol


Que o que foi registrado
em palavras ditas e escritas
em folha de papel
assinado e pontuado
com exclamações e certezas
fique imóvel
no tempo que nasceu.

Feito aquelas fotos antigas
que são bonitas
porque passaram.


Texto e imagem: Ana Flávia Rodrigues.