sexta-feira, 17 de junho de 2011

MILES DAVIS


peça para lhe dizer o indizível
só não se sabe porque já está dito
escutar não significa compreender
é mero lapso de incógnito sonido

As ondas fazem o rádio vibrar
essa linguagem indecifrável
invade, fere cristal silêncio
e faz verter o ser pelos sentidos

É o soprar de um trompete
ou o inspirar de um prodígio
que dá letras mortas à palavra
e faz calar sua medíocre eloquência


terça-feira, 14 de junho de 2011

Ciúme de você

As bochechas um pouco caídas, tal como um bulldog francês, e o olhar parado, denunciam a sua, rara, condição de seriedade. E a boca, desenhada a 0.5, com aquele detalhe no meio, fica um pouco aberta, o que faz, de vez em sempre, escorrer uma babinha. O interessante é que em vez de causar nojo, só o que faz é, automaticamente, gerar um ato de cuidado, de pegar um dos tantos paninhos que fazem parte dos apetrechos e limpar.
Uma careta, uma gracinha, esboça um sorriso e volta a ficar com a expressão séria. Será que é sono? Pode ser fome. Não, mamou há apenas duas horas. Está limpinha, então o que pode ser? Nada não. Só porque parece uma mala velha, sorrindo praticamente todos os segundos desde que acorda até dormir – e até dormindo, também sorri – não significa que as bochechas caídas são motivo de preocupação.
Até que, de repente, no meio daquela gente toda da festa junina da escolinha, ele chega. Entoa o seu grave chamamento e dois olhinhos jabuticábicos de cílios de boneca brilham. A bochecha é suspensa por um sorrisão banguelo, as pernas balançam e toda aquela seriedade, incomum, desaparece.
É... As meninas gostam mesmo dos seus papaizinhos.



Texto e imagens: Ana Flávia Rodrigues.

sexta-feira, 10 de junho de 2011

O amor segundo Vagner Luiz


O amor é um sentimento indescritível e confuso.
Ele é profundo, mas se percebe nos olhos, na pele, na superfície do corpo.
Experimente, por exemplo, amar alguém hoje.
Ame essa mesma pessoa amanhã e depois de amanhã e ame-a novamente.
Quando estiver cheio de amar o sentimento de amor vai vazar por seus poros.
O amor vai ser visível em seus olhos, no seu sorriso.
A pessoa que você amar vai se alimentar do amor que vazar de você.
O amor é este sentimento estranho que passa de um corpo para o outro.
Amar é bom nas primeiras vezes, nos primeiros encontros, olhares e beijos.
Depois ele se torna insuportavelmente bom.
Ame no dia dos namorados, ame depois.
Pois, entre dois dias dos namorados há 364 dias pra amar.



Texto e imagem: Vagner Luiz.

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Desembarque


"Navigare necesse; vivere non est necesse"


Quero comprar um barco.
Um lar que balança como um berço para que eu possa morar.
Navegar pelos ares sonoros, deslizar correntes. Ter um barco...

Para que a vida seja,
não só o sopro quase sempre inesperado,
mas o mormaço, a brisa, o azul de céu, o pedaço do oceano,
os devaneios do mar.

Quero embarcar nessa onda que não teme correnteza,
que corre seus riscos e não tem medo de se afogar.

Vou pendurar quadros em suas paredes incertas,
encher de uísque, rum e vodka as prateleiras do bar.
Deixarei as escotilhas abertas, buscarei a bússola antiga e velas eternamente preparadas para zarpar.

Meu barco sem âncoras, sem jeito, sem rumo,
cheio de asas de ir e voltar.

Hei de morar em você, caminhar como quem mergulha em águas
que não se deve nadar.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Ritual de Lua Cheia


Equinócio de Outono

Quero amá-lo
num ritual de lua cheia
equinócio de outono
amar até vir o sono
amarrá-lo nessa teia
santa ceia de noite e dia
na pousada lua e terra
na pousada céu e serra
mel e rubor
até o estupor,
explodir a alma.

Calma, calma, por apenas mais um minuto,
depois dos surtos de verão, não sei não
ainda não entendo sua evasão
calma! não sei se me acostumo
Tenho medo/tome prumo
essa é minha dualidade
e depois deu saudade
e guardei-a só pra mim
vai que é só minha, enfim,
a saudade
nem tudo foi dividido
mas algo foi duvidado
partido, compartilhado
não está escondido,
está escancarado
basta ser lido
no poste ao lado.


Poesia: Kamilla Mota.
Fotografia: Daniel Rubens Prado.