sexta-feira, 26 de outubro de 2012

 
I
 
Em algum ponto do antigo
Curral del Rey cruzava-se
a civilidade romana
e o imaginário católico do medievo.
 A tradição clássica atravessada pelas ogivas góticas gritando uma história invisível.
Os meus ouvidos atentos ouviam aquele silêncio.
Em escutar aquelas formas performáticas
de um delírio criativo,
em atravessar as hierarquias pavimentares
cortada pelos raios coloridos das janelas, marcada pelo nascimento da guerra, pela biblioteca infinita,
pelas vozes da rádio Mineira, pelas Letras e pelos minérios
museo-logicamente
esvaziei-me.
Quase demoli-me naquele 68
sem função, era corpo sem alma para a mentalidade deles
sou de fato
corpo vagante
corpo vigente
corpo deslocado
corpo difratador de enigmas
bem no coração de BH.
 
II
 
Do Edifício Maleta me veem
me admiram: minhas cores, minhas formas
Do Edifício Maleta me cantam
minhas curvas, minha beleza
Do Edifício Maleta já não veem
que o tempo me corrói por dentro-fora
que minha única companhia são os artistas da noite
os artistas da vida que interpelam os passantes
vagabundos
assim como eu, eles sentem o solo da cidade
a poeira, os excrementos, a sujeira
que o prefeito tenta superficialmente lavar
assim como eu, eles causam uma oscilação na cidade
repúdio de uns, descaso de outros
eu-eles somos ruínas.
 
III
 
Somos mais que arruinados, somos fatasmagoria do inútil
resistência de alguma coisa
assim como palavras
palavracoisa
advérbio de lugar ou tempo
agora, pronomes
que tornam essa ferida
arquitetura
do ser.
 
 
 
Poesia: Maiara Knihs.
Imagem: Revista Bello Horizonte - Arquivo da Cidade. 
 

terça-feira, 16 de outubro de 2012


Dois pra lá, dois pra cá
gira, rodopia, expande
estira os braços lânguida e flutuante.
...ela dança.

Contrai, introspecta,
sente, grita-dói, chora,
fuzila com os olhos a plateia a sua volta.
...ela atua.

Fecha os olhos, gargareja o mar
oitava, falseta, balbucia
solta o cio ao vento, irrestrita. Maldita.
...ela canta.

E sem mais ânsias sequer
E sem mais delongas sobre esta mulher:
Ela é.


Poesia: Gigi Favacho.

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Ausência



Abro os olhos. No sonho, você dizia: sim, e balançava a cabeça com suavidade; eu estendia a mão para tocá-la, mas não alcançava seu rosto; você se afastava, olhando para mim.
 Levanto da cama, me aproximo do espelho. No fundo da retina, sua imagem aparece: nua, você brinca na água. Tiro a roupa, mergulho. Você sai na outra margem, se enrola na toalha.
Entro no chuveiro. O vapor me recorda aquela noite: você bebe, encostada no balcão. A fumaça do cigarro te envolve. Finjo não te observar, você disfarça. Peço outra cerveja.
Visto a jaqueta, lembrando de como te protegia quando você tinha medo: eu te apertava contra o peito, você se encolhia e fechava os olhos, sentindo meu cheiro. Um sorriso devolvia seu rosto de menina.
Saio de casa. No ponto de ônibus, meus olhos te acompanham: inquieta, você anda de um lado para o outro, olhando o relógio. O vento atrapalha seu cabelo. Você vira de costas, suspende a gola do casaco. Sente frio. Seu ônibus chega, você sobe. Do último degrau, olha para mim.
Em frente ao Mercado Central, você entra. Parece cansada. Fico em pé, ofereço meu lugar. Você agradece e senta, abraçando a sacola de compras. Eu adorava me aconchegar ao seu colo, sentir sua pele, a cadência da respiração aumentando. E, sem mover a cabeça, brincar com a língua no brotinho do seu seio. Você ria e me acariciava, o coração disparado.
Na repartição, atendo o telefone. Com sua voz macia, me pergunta se é da Floricultura. Não, não é (mas poderia ser). Não vendem flores, aí? Não vendemos (como seria bom que...). É o número que está no catálogo, você reclama, impaciente. Ofereço ajuda, você desliga.
Saio do trabalho, volto para casa a pé. Na avenida, a multidão caminha apressada. Você passa por mim muitas vezes. Seu olhar é um vão do cansaço à ilusão.
Para encurtar a noite, tomo um caminho mais longo. No bar da esquina, quatro homens jogam cartas, gritando. Por você, eu apostaria o dobro do que não tenho.
Na janela do quarto, fumo o último cigarro. Um avião cruza o céu, rumo ao norte. Vênus ainda brilha no horizonte.
A cama é um deserto branco, vazio, assustador.

Texto: Maurício Meirelles.

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Quiero un mar


Para Valeria Dulitzky.

de tu aire quiero un viento
y de tu luz un sol
de tu risa quiero todo y de tu agua quiero un mar
quiero un mar, quiero un mar
quiero lluvia y quiero más

de tus ojos, de tus manos, de tu boca quiero más
tus miradas, tus caricias y tus besos quiero ya
quiero más, quiero un mar
quiero lluvia y quiero más

un impulso a lo profundo con tu sonrisa me invade
y el aire se estremece, todo parece vibrar

de tu aire quiero un viento y de tu luz un sol
de tu risa quiero todo y de tu agua quiero un mar
quiero un mar, quiero un mar
quiero lluvia y quiero más

Letra de una canción de Pablo Bas.
Imagem: Pés de Pescador, por
Fátima Baptista.

quarta-feira, 25 de julho de 2012

PELE

Sobrevivo, viro esquinas, pulo poças
uma lâmina de água e sou eu
refletido inúmeras vezes, numa quase perfeição.

em primeiro plano, meu pano, meu engano
a nítida imagem, insensata palidez
o maior órgão, a capa, o couro, a tez

me dás calor, protejas meu segredo
sejas meu castelo, minha cama, meu império
minha arma, irmã, meu desejo

mas me rusgue na hora exata
me rasgue na hora exata
rompa-me na hora exata

e serei eu, somente eu, naquilo em que estiver
a ver ti, fétida, se tornar homogênea frente ao solo
a nutrir e ser útil, como sempre se propôs a ser .
Poesia: Bruno Sales.
Imagem: Crissant.