segunda-feira, 11 de julho de 2011

Daqui de dentro



Para Y.A.


Dentro de mim há uma tímida devoção,
um encantamento necessário,
uma melancolia - fogueira de chama azul que consome
todas as cores do meu dia.

Dentro de mim estão todos os versos
que jamais escreverei,
um alvoroço de palavras de leveza sua.

Dentro de mim há uma felicidade inquieta,
lembrança dos carinhos que você nunca me daria,
memória turva dos caminhos que não traçamos juntos.

Dentro de mim não há dúvida,
há uma ânsia desconcertante,
um afeto sem efeito,
uma insistência, talvez, inútil.

Dentro de mim há desordem,
inquietude, mudez,
Ilusão contente de beijos e carícias.

Dentro de mim cresce
uma esperança aprendiz
de quem sabe que lá dentro,
bem no fundo,
um homem chora
e uma criança ri.





quarta-feira, 6 de julho de 2011

Aos Fantoches... Seres Humanos... De Carne ou de Pano




Nas janelas do trem
De ferro ou madeira
As montanhas são de Minas
e os trilhos também
Os apitos vão soando
num sorriso de criança
Os bilhetes recolhidos
Reprimem os pés nos bancos
São João Del-Rei
À estação Tiradentes
Cidade acolhedora
Terra de duendes
De pedras são as ruas
De magia e fantasia
Do alto a cidade
Vê-se as torres e telhados
Vizinhos companheiros
Acenam quando passam
nós fantoches seres humanos...
... de carne ou de pano.





Texto: Diane Mazzoni.
Imagem: Rômulo.

segunda-feira, 20 de junho de 2011

FALA


O fluxo do ouvido está travado,
Não ouço, mas escuto o que eu falo.
Vejo o que não posso.
O que se preza,
Não mata, não dorme, desespera.
O gosto do silêncio está fechado,
O grito do sufoco está calado.
Calmo, vivo, não enxerga.
Já não come, não engole,
Espera.
O homem que não pensa está ferrado.
Ferrado pelo corpo,
Pelo ato.
Não pensa, descansa,
Não se cala.
Como mero semelhante,
Não entala.
O olho do umbigo já não fecha,
A boca do sussurro já não fala.



Texto e imagem: Bruno Grossi.

sexta-feira, 17 de junho de 2011

MILES DAVIS


peça para lhe dizer o indizível
só não se sabe porque já está dito
escutar não significa compreender
é mero lapso de incógnito sonido

As ondas fazem o rádio vibrar
essa linguagem indecifrável
invade, fere cristal silêncio
e faz verter o ser pelos sentidos

É o soprar de um trompete
ou o inspirar de um prodígio
que dá letras mortas à palavra
e faz calar sua medíocre eloquência


terça-feira, 14 de junho de 2011

Ciúme de você

As bochechas um pouco caídas, tal como um bulldog francês, e o olhar parado, denunciam a sua, rara, condição de seriedade. E a boca, desenhada a 0.5, com aquele detalhe no meio, fica um pouco aberta, o que faz, de vez em sempre, escorrer uma babinha. O interessante é que em vez de causar nojo, só o que faz é, automaticamente, gerar um ato de cuidado, de pegar um dos tantos paninhos que fazem parte dos apetrechos e limpar.
Uma careta, uma gracinha, esboça um sorriso e volta a ficar com a expressão séria. Será que é sono? Pode ser fome. Não, mamou há apenas duas horas. Está limpinha, então o que pode ser? Nada não. Só porque parece uma mala velha, sorrindo praticamente todos os segundos desde que acorda até dormir – e até dormindo, também sorri – não significa que as bochechas caídas são motivo de preocupação.
Até que, de repente, no meio daquela gente toda da festa junina da escolinha, ele chega. Entoa o seu grave chamamento e dois olhinhos jabuticábicos de cílios de boneca brilham. A bochecha é suspensa por um sorrisão banguelo, as pernas balançam e toda aquela seriedade, incomum, desaparece.
É... As meninas gostam mesmo dos seus papaizinhos.



Texto e imagens: Ana Flávia Rodrigues.